Você abre a porta e, antes mesmo de conseguir tirar o sapato, seu cachorro já está com o focinho no seu joelho, na sua roupa, na sua bolsa e, se deixar, praticamente dentro do seu casaco.
Ele cheira com uma concentração que parece a de alguém analisando uma cena de crime.
E, de certa forma, está mesmo investigando. Só que, para um cachorro, o cheiro é uma das principais maneiras de entender o mundo. Quando você chega em casa depois de algumas horas fora, você pode simplesmente ter voltado do trabalho. Para ele, você voltou trazendo uma quantidade enorme de informações.
O nariz é uma espécie de banco de dados
O olfato dos cães é muito mais desenvolvido que o nosso. Dependendo da raça, eles podem ter até centenas de milhões de receptores olfativos, enquanto os seres humanos têm cerca de 6 milhões. A região do cérebro dedicada ao processamento dos odores também é proporcionalmente muito maior nos cães.
Isso ajuda a explicar por que uma caminhada pode ser tão interessante para um cachorro. Enquanto nós passamos por uma árvore e simplesmente vemos uma árvore, ele pode passar vários segundos cheirando aquele mesmo lugar.
O cheiro carrega informações.
E quando você chega em casa, seu cachorro provavelmente quer descobrir quais informações vieram junto com você.
O que ele consegue descobrir?
Não dá para traduzir exatamente o que um cachorro “sabe” ao cheirar uma pessoa, mas sabemos que os cães conseguem distinguir uma enorme variedade de odores e perceber mudanças químicas que nós não conseguimos detectar.
A roupa pode carregar odores de lugares por onde você passou, de outras pessoas, de animais, de alimentos, de produtos de limpeza e de muitos outros elementos do ambiente.
Seu cachorro também consegue perceber componentes químicos presentes no suor e na respiração.
Isso significa que aquele cheiro de “passei o dia fora” não é um cheiro único. Para o nariz de um cachorro, provavelmente é uma mistura bastante complexa.
É por isso que você pode voltar para casa depois de visitar um amigo que tem cachorro e encontrar o seu esperando na porta para fazer uma investigação completa.
Você não precisa contar onde esteve.
O nariz já recebeu algumas pistas.
E sim, ele pode perceber sinais associados ao estresse
Existe evidência experimental de que cães conseguem distinguir odores produzidos por pessoas em diferentes estados de estresse.
Em um estudo publicado na PLOS ONE, cães foram capazes de diferenciar amostras de hálito e suor coletadas das mesmas pessoas antes e depois de uma situação que provocava estresse. Os pesquisadores concluíram que alterações fisiológicas associadas ao estresse produziram mudanças nos compostos voláteis presentes nessas amostras, que podiam ser detectadas pelos cães.
Isso não significa que o cachorro esteja pensando “minha tutora está ansiosa hoje”.
O mais provável é que ele esteja percebendo mudanças químicas no odor corporal.
A interpretação do que aquilo significa é outra história.
Por que ele gosta tanto de cheirar sua roupa?
Porque a roupa é praticamente um álbum de cheiros.
Ela fica em contato com o seu corpo, passa por diferentes ambientes e pode acumular moléculas de diversas fontes ao longo do dia.
Uma camiseta que você usou durante oito horas pode contar uma história olfativa muito mais interessante para um cachorro do que parece para você.
Isso também explica por que alguns cães ficam especialmente interessados em sapatos.
Para nós, um tênis usado é apenas um tênis usado.
Para eles, pode ser uma concentração de informações sobre os lugares onde aquele sapato esteve.
E por que ele vai direto para a virilha?
Essa é a parte que deixa muita gente sem graça, principalmente quando o cachorro decide receber uma visita dessa maneira.
A região da virilha e outras áreas do corpo possuem odores particularmente informativos para os cães, em parte por causa da presença de glândulas que produzem secreções com diferentes compostos químicos.
Cães também utilizam o olfato na comunicação social e são capazes de captar sinais químicos que nós praticamente ignoramos.
Então, quando um cachorro enfia o focinho na virilha de alguém, ele não está sendo deliberadamente inconveniente.
Ele está usando uma ferramenta sensorial extremamente desenvolvida para investigar uma região que oferece bastante informação.
Ainda assim, você pode ensinar que esse comportamento não é adequado com visitas.
Uma coisa é entender por que ele faz isso. Outra é permitir que ele faça com todo mundo.
Ele também está reconhecendo você
O cheiro não serve apenas para descobrir onde você esteve.
Ele também faz parte do reconhecimento.
Cães utilizam odores na comunicação e na interação social, e o cheiro de uma pessoa familiar é uma informação importante para eles.
Por isso, aquele farejamento intenso quando você chega pode ser uma mistura de curiosidade, reconhecimento e interesse pelo que aconteceu enquanto você estava fora.
Depois de algumas horas sem você, seu cachorro tem um pequeno “relatório” para atualizar.
E você acabou de chegar com informações novas.
Mas cachorro consegue sentir doenças?
Aqui vale separar ciência de histórias que circulam na internet.
Existem estudos mostrando que cães treinados conseguem identificar diferenças entre amostras associadas a determinadas doenças, incluindo alguns tipos de câncer. Pesquisas nessa área investigam compostos voláteis produzidos pelo organismo e que podem ser detectados pelo olfato canino.
O problema é transformar essa descoberta em uma espécie de diagnóstico doméstico.
Uma revisão sistemática que avaliou estudos sobre detecção de câncer e doenças infecciosas por animais encontrou resultados bastante variados e apontou limitações importantes na qualidade das evidências. Os autores concluíram que ainda não há evidência suficiente para usar essa capacidade como método clínico de diagnóstico.
Portanto, se seu cachorro começar a cheirar insistentemente uma parte específica do seu corpo, não significa automaticamente que ele encontrou um problema de saúde.
Pode ser simplesmente um cheiro diferente.
Mudanças hormonais, produtos usados na pele, suor, alimentos, medicamentos e inúmeras outras coisas podem alterar o odor corporal.
Se existir algum sintoma ou preocupação de saúde, a referência continua sendo a avaliação médica, não o focinho do cachorro.
Então, da próxima vez que ele fizer o interrogatório…
Talvez você possa olhar para a situação com um pouco mais de curiosidade.
Quando seu cachorro chega cheirando suas pernas, sua roupa, sua bolsa e seus sapatos, ele não está simplesmente sendo curioso demais.
Ele está usando um dos sentidos mais importantes para a espécie dele.
Para nós, voltar para casa significa abrir a porta e entrar.
Para ele, pode significar abrir um novo capítulo do dia:
“Vamos descobrir por onde essa criatura andou.”
E, considerando a quantidade de informações que um cachorro consegue extrair dos cheiros, provavelmente você nunca mais vai olhar para aquela cheirada no joelho da mesma maneira.
Fonte consultada: VCA Animal Hospitals
Aviso importante: este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com um médico-veterinário. Em caso de sinais de mal-estar, procure atendimento veterinário imediatamente. Leia nosso Aviso Legal completo.