Você sai para passear com o cachorro e, antes mesmo de chegar à esquina, ele para.
Cheira o poste.
Cheira o chão.
Anda alguns passos, volta, cheira de novo e parece completamente hipnotizado por alguma coisa que você, obviamente, não consegue enxergar.
Você olha para o relógio.
“Vamos?”
Ele olha para você.
E volta a cheirar.
Para quem está tentando fazer o cachorro gastar energia, pode parecer que ele está simplesmente enrolando. Só que, para o cachorro, aquele momento não é uma pausa no passeio.
É o passeio.
Enquanto você vê uma calçada, um poste e algumas árvores, seu cachorro está recebendo uma quantidade enorme de informações através do nariz. E é justamente por isso que deixar o cachorro farejar durante o passeio é muito mais importante do que parece.
O cachorro conhece o mundo pelo nariz
Nós usamos principalmente a visão para entender o que está acontecendo ao nosso redor. O cachorro também enxerga, é claro, mas o olfato tem um papel muito maior na maneira como ele explora o ambiente.
Quando coloca o nariz no chão, ele não está apenas sentindo um cheiro agradável ou desagradável.
Está investigando.
Um cachorro que passou por aquela calçada deixou informações. Outro animal passou depois. Alguém carregou comida por ali. Uma pessoa esteve naquele lugar. Alguma coisa mudou no ambiente.
Os cheiros contam histórias que nós simplesmente não conseguimos perceber.
É por isso que aquele poste aparentemente insignificante pode ser muito mais interessante para o cachorro do que para você.
Para nós, é um poste.
Para ele, é praticamente um mural de recados.
Farejar dá trabalho para o cérebro
Farejar também não é uma atividade completamente passiva.
O cachorro precisa procurar odores, identificar diferenças, acompanhar rastros e decidir quais informações merecem mais atenção. Ele pode mudar de direção, voltar para um ponto específico e passar bastante tempo investigando algo que parece não ter absolutamente nada de especial.
Esse processo exige concentração.
É um dos motivos pelos quais permitir que o cachorro explore os cheiros durante o passeio pode funcionar como uma forma de enriquecimento ambiental.
E enriquecimento não significa necessariamente comprar um brinquedo sofisticado.
Às vezes, significa simplesmente não apressar o cachorro enquanto ele está usando uma das ferramentas mais importantes que possui.
Um passeio não precisa ser uma prova de velocidade
Existe uma tendência de pensar que cachorro cansado é cachorro que correu bastante.
O exercício físico é, sim, importante. Mas o passeio não precisa ser apenas uma atividade para fazer o cachorro andar o máximo possível.
Imagine duas situações.
Na primeira, o cachorro passa meia hora andando em um ritmo constante, sem poder parar, enquanto a guia é puxada toda vez que ele tenta investigar alguma coisa.
Na segunda, ele também caminha, mas tem alguns momentos em que pode diminuir o ritmo, escolher para onde ir e passar um tempo cheirando o ambiente.
A distância percorrida pode até ser menor na segunda situação.
Mas isso não significa que o passeio tenha sido menos interessante.
Para um cachorro, explorar também é uma forma de atividade.
Então devo deixar meu cachorro cheirar tudo?
Não.
E aqui existe uma diferença importante.
Dar liberdade para farejar não significa deixar o cachorro colocar o nariz em qualquer coisa que encontrar na rua.
Existem lixo, alimentos estragados, fezes, produtos químicos, plantas potencialmente tóxicas, animais e outros elementos que podem representar risco.
Também existem situações em que você simplesmente precisa continuar andando. Uma rua movimentada, uma entrada de garagem, outro cachorro que não deve ser abordado ou qualquer situação potencialmente perigosa exigem que o tutor interrompa a exploração.
A ideia não é transformar o passeio em uma negociação permanente.
É reservar espaço para que o cachorro possa ser cachorro.
Quando o ambiente é seguro, você não precisa puxá-lo imediatamente toda vez que ele para para cheirar.
O cachorro pode passar vários minutos no mesmo lugar
E isso é uma coisa que costuma enlouquecer os tutores.
“Mas ele já cheirou isso!”
Sim.
E talvez agora esteja encontrando uma informação diferente.
O cheiro de um animal pode mudar conforme passa o tempo. Outros odores podem ser adicionados ao local. A intensidade pode diminuir. O cachorro pode simplesmente estar investigando algo que chamou muito a atenção dele.
Nós não sabemos exatamente o que ele está descobrindo porque não temos acesso ao mundo daquela maneira.
Então, quando ele fica alguns segundos concentrado em um ponto aparentemente banal, vale lembrar:
o fato de você não perceber nada não significa que não exista nada para ele perceber.
Farejar também pode ser uma atividade dentro de casa
O olfato não precisa ficar restrito à rua.
Você pode criar pequenas brincadeiras de procura em casa usando a própria comida do cachorro ou alguns petiscos.
Comece de maneira simples. Esconda alguns pedaços em lugares fáceis de encontrar e deixe que ele procure.
Depois, conforme ele entende a brincadeira, você pode aumentar um pouco a dificuldade.
Uma caixa de papelão com alguns petiscos dentro, um brinquedo recheável ou um tapete de farejar também podem oferecer oportunidades para o cachorro usar o nariz.
O interessante é que você não precisa transformar isso em uma competição.
Não é sobre descobrir quem é o cachorro mais rápido.
É sobre dar a ele uma oportunidade de investigar.
Farejar não substitui exercício
Essa ressalva é importante.
Um cachorro não vai compensar todas as necessidades de atividade física passando o dia cheirando um tapete.
Dependendo da idade, raça, condição física e personalidade, ele também pode precisar de caminhadas mais longas, brincadeiras, corrida ou outras formas de exercício.
Da mesma maneira, farejar não substitui treinamento, interação social adequada ou descanso.
O ponto é outro: o olfato também faz parte das necessidades comportamentais do cachorro e merece espaço na rotina.
E se meu cachorro puxa a guia para cheirar?
Nesse caso, pode ser interessante trabalhar duas coisas ao mesmo tempo.
Em alguns momentos, você precisa que ele acompanhe seu ritmo. Em outros, pode sinalizar que está tudo bem explorar.
Uma rotina simples pode ser:
“Vamos” → caminhar junto → “pode cheirar” → exploração → “vamos” → continuar o passeio.
Assim, o cachorro não precisa aprender que existem apenas duas opções: puxar para chegar ao cheiro ou ser constantemente impedido de investigar.
Ele pode aprender que o passeio tem momentos diferentes.
Isso também pode tornar a caminhada mais previsível para ele.
O melhor passeio não é necessariamente o mais longo
Um passeio de qualidade não precisa ser medido apenas pelo número de quilômetros percorridos.
Para alguns cães, uma caminhada tranquila com bastante oportunidade de farejar pode ser uma experiência muito mais rica do que uma volta apressada pelo quarteirão.
E isso vale especialmente para aqueles dias em que você não consegue fazer um passeio enorme.
Talvez você não tenha uma hora disponível.
Tudo bem.
Você ainda pode escolher uma rota tranquila, diminuir o passo e deixar seu cachorro investigar os cheiros que encontrar.
Porque, para ele, aquele passeio não é apenas uma maneira de chegar de um lugar ao outro.
É uma oportunidade de descobrir o que aconteceu naquele lugar desde a última vez que esteve ali.
Da próxima vez, espere um pouco
Na próxima vez que seu cachorro parar diante de um poste e começar aquela investigação interminável, talvez você consiga olhar para a cena de outro jeito.
Você continua sem saber exatamente o que ele está sentindo.
Mas agora sabe que, enquanto você vê um poste, ele provavelmente está lendo um monte de informações que não estão disponíveis para você.
Então, se estiver seguro e você não estiver com pressa, espere mais alguns segundos.
Deixe o cachorro farejar.
Afinal, para ele, o cheiro não é uma distração do passeio. É uma das principais maneiras de entender o mundo.
Fonte consultada: RSPCA. Enrichment for dogs.
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